Reconheci-lhe os
traços de quem dirige o olhar e segue com o corpo todos os sinais vestigiais de
vida que o rodeia. O som não o chama mas ele quer responder-lhe com a mesma
vontade de quem quer descobrir as vestes vermelhas do velhinho das barbas
brancas no dia de Natal. Não sei o que tinha aquele olhar perdido pelos cantos
da mesa que lhe estava atrás, mas deixei-me cativar por aquele menino desde o
momento em que me apresentei.
J, apresentou-mo a professora.
Daquele sorriso
envergonhado, saía mais tarde um discurso parco em palavras e
descontextualizado. A caneta do colega do lado era mais entusiasmante do que a
minha voz e só do estilo rápido para a frente é que a curiosidade era posta na
ordem. Alheei-me da turma por uns minutos e recatei-me numa observação não
anunciada.
- Professora, por acaso o J tem algum problema?
A resposta que
se desdobrou em poucas palavras trazia já a adivinha da futura “complicação” e
foi-me suficiente. Mas como alguém que ainda não traz a experiência ao colo,
preferi perguntar se existia um diagnóstico mesmo com a resposta debaixo da
língua.
- “Hiperactividade”.
Assentava-lhe em cada gesto, dificuldade ou intervenção. Era como
se o visse vestido com toda a informação que tenho acumulado à mesma velocidade
que uma casa abandonada conquista ao pó. Assim, à mesma velocidade com que ele
e a luz se comportam.
O duelo começou
com a impossibilidade de fazer mais. O meu papel de voluntária não era ali o de
terapeuta. Desconcertava-me atentar aos intervalos curtos de atenção e não poder
dar-lhe um tempo para ele lhes atribuir significação.
O ritmo da
escola não acompanha o dele(s). Exige-se muito a uma criança destas. Não é que
não seja capaz! Mas eles precisam de aprender a aprender. Vivem num impulso,
fazem do momento uma corrida sem sequer se aperceberem. Não é deles, ou só
deles, conscientemente. É da biologia e do envolvimento, de quem tem um
desenvolvimento condicionado por aspectos que não são claros como a água.
Tratemos de ir buscar a maquinaria pesada para travar mentes atrasadas que o
século já é outro. É preciso conhecer, mas mais do que isso, compreender. Dar
espaço em vez de cortar com as amarras de forma brusca. Não se pode deixar à
deriva quem está preso a um corpo que não aprendeu como os outros.
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